RECORDAÇÕES DE NATAL
O Sol pôs-se no Poente e em casa, o fogão da cozinha não parava e não se apagava.
A chama do gás elevava-se num clarão dourado como nunca tinha acontecido nos anteriores dias do ano e todos se moviam numa azafama tamanha, para preparar a festa natalícia, a festa anual da família.
As famílias nessa época eram muito numerosas e todos os anos se reuniam à volta da mesa na noite de Consoada para festejarem o nascimento do Menino Jesus.
As ruas eram enfeitadas com instalações eléctricas muito coloridas por conta da autarquia, dos comerciantes locais e ouviam-se músicas alusivas ao Natal, para alegrar mais ainda a alma de quem por elas passava.
O mês de Dezembro era o mês mais bonito do ano. Era por si só, um verdadeiro presente de Natal.
As luzes coloridas, as noites e os dias muito frios e húmidos, o cheiro das castanhas assadas nas ruas, as músicas e as montras recheadas de coisas bonitas e boas, maravilhavam os adultos e as crianças.
A neve... a neve que frequentemente cai nesta época do ano sobre as árvores e sobre a relva dos jardins em forma de flocos brancos, pareciam pétalas de rosas brancas a cairem do céu e faziam vir à memória imagens fantásticas, iguais às imagens dos contos de fadas ouvidos e contados pelos adultos à criançada, porque nessa época, não existia televisão, computadores e nem a net recheada de informação, jogos e outras diversões.
Na noite de Consoada, em todos os lares, jogava-se ao Rapa, Tira, Põe e Deixa com os familiares presentes e em unissono todos se divertiam.
Todos nos vestíamos com a melhor roupa que tínhamos, para nos sentarmos à mesa na Ceia de Natal, para assistirmos na igreja à missa do galo e para ser usada no dia seguinte, no dia de Natal.
Com toda esta vivência tão modesta as crianças eram felizes, mesmo quando o frio era grande e a roupa sobre o corpo era pouca ou de má qualidade térmica, incapaz de fazer frente ao frio do Inverno.
Cresci neste ambiente e tornei-me num ser humano forte e resiliente, incapaz de me deixar vencer palas contrariedades da vida.
Aos meus filhos quis transmitir-lhes a mesma força, a mesma alegria de viver e os mesmos valores que me tinham transmitido e eu adquirido enquanto criança.
Antes que eles crescessem e abandonassem a inocência que os envolvia na época natalícia, quis fazer daquele Natal, um Natal muito especial.
Temia que no ano seguinte com o aumento de idade deles, com a entrada para a escola primária e com a evolução da sociedade, perdessem a inocência que envolvia o Natal das crianças.
Depois de preparar a ceia tradicional com as batatas, o bacalhau, os doces, e de colocar o melhor serviço de jantar na mesa, sobre uma toalha dourada com os guardanapos vermelhos e um grande centro de Natal feito com ramos de pinheiro, flores, azevinho e uma vela vermelha no centro, para embelezar mais ainda o ambiente festivo da ceia de Natal, decidi também fazer algo diferente que, até ali, nunca me tinha lembrado de fazer.
No fim da ceia, para ajudar a passar o tempo que faltava no relógio para dar as badaladas da meia noite, comecei por lhes contar como eram os meus natais quando eu era pequenina.
Então disse-lhes :
- Quando eu era pequenina, numa noite de Consoada abri a janela da sala para ver a lua, o luar e as estrelas.
A noite estava luminosa e linda com seus cabelos prateados sobre a Terra e as estrelas brilhavam muito, brilhavam como se estivessem a iluminar uma grande árvore de Natal... a árvore dos anjinhos do Céu.
Era uma noite muito especial em todos os lares do mundo e em todo o Planeta.
Ao longe avistei o rio Douro serpenteado e lento devido ás barragens que lhe acalmavam a ferocidade que tinha, mas muito barrento porque as chuvas do Inverno tinham sido muitas e tingiram-lhe o leito de cor dourada.
O planeta Terra estava em festa para festejar o nascimento do Rei Salvador.
Ao olhar para o Céu, também vi por cima de uma casa distante, um trenó puxado por seis renas, com um motorista bastante velhinho e muito volumoso, com umas reluzentes bochechas e com as barbas longas e brancas devido à idade.
O frio parecia não o sentir, apesar da noite estar gelada e com a neve a cair com abundância e gritava, gritava muito com as renas:
- “ Vamos Maria!… vamos Eufrázia!… Que ainda temos muitos lares para visitar.”
O motorista vestia um fato quentinho de lã, de cor vermelha e as renas estavam cobertas de peles e mostravam-se preocupadas e apressadas porque ainda tinham que visitar todos os meninos e meninas que se tinham portado bem durante o ano.
O velhinho puxava com avidez e com muita força as rédeas do colorido trenó cheio de presentes de todas as cores e tamanhos.
Ainda esperei que alguma prenda caísse pela minha chaminé, porque com muitos dias de antecedência, eu tinha colocado o meu sapato mais velhinho num canto da cozinha, para não incomodar a cozinheira que diariamente preparava as refeições. Mas nada!… não caiu nada… porque ainda não era a hora de passar na minha rua. Apesar de muito admirada com aquela visão, eu soube naquele preciso momento que era o pai Natal.
Fiz uma pausa… mas os meus filhos na sua imensa inocência não contrariaram em nada as minhas afirmações e nem fizeram perguntas para não haver perda de tempo.
Estavam mais atentos a todos os ruídos que pudessem anunciar a chegada do Pai Natal, do que ouvirem a história da minha infância.
A ansiedade de receberem os presentes também lhes apagava todo o interesse pelo meu conto.
Como não se mostravam minimamente interessados, tive que abreviar o fim da história para dar início à minha ideia especial e inovadora daquela noite.
A meia noite também se aproximou e quando o sino da torre da Igreja deu as doze badaladas, alguém que estava na sala sentado à mesa, puxou o fio escondido que prendia a tampa da panela onde tinham sido cozidas as batatas, a hortaliça, os ovos e o bacalhau que propositadamente tinha sido deixada sobre o fogão da cozinha, para que a queda e o impacto com a tijoleira do chão, fosse grande e fizesse muito barulho.
A tampa caiu e fez um estrondo tão grande, que se ouviu na sala onde todos estavam sentados à mesa.
As crianças, num misto de medo e alegria, agarraram-se ao assento da cadeira e com os olhinhos muito abertos exclamaram:
- É o Pai Natal!… É o Pai Natal!…Ele chegou!… Ele já chegou.
Depois de se acalmarem um pouco, correram para a cozinha em direcção às prendas e, ao verem os presentes que os esperavam, os olhinhos de cada um deles brilharam de alegria e satisfação como se fossem dois faróis ligados à corrente.
Não sabia se seria a última vez que iria ouvir a célebre promessa anual ditada pela boca daqueles inocentes, mas mais uma jura espontânea foi feita naquela noite, de que iriam ser sempre bons meninos durante todos os dias do ano e que iriam amar sempre os pais, a família, as pessoas e os animais, para voltarem a ter a presença do Pai Natal, em todos os Natais de suas vidas.
4-12-2018
Reservados os direitos de Autor.
Autora: Maria Judite de Carvalho da Costa Reis
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